5 DE MAIO DE 1973






Os textos abaixo citados referem-se a uma operação decorrida em 1973, na mata do Choquemone, tendo a particularidade de ser referenciada em três livros de autores diferentes, possibilitando, deste modo, leituras individuais do mesmo acontecimento, que nalguns casos se sobrepõem, noutro revelam aspetos vividos pelo protagonista ou ainda informação complementar.

Não sendo estas descrições de ações diretas das Panhards. Não deixam de ser um registo importante, que ficou com certeza na memória dos intervenientes, e que salienta o modo espontâneo e corajoso do nosso pessoal, mesmo em situações extremas.  

Bula, 5 de Maio, sábado
“Ainda a crua madrugada se demorava no ar e já se desencadeava uma operação ao Choquemone. Com os comandos, fuzileiros e companhias do Batalhão(1).
Quando já a luz do sol se fazia a jorros, uma companhia do Batalhão foi emboscada. No meio daquela pessegada quatro morreram enrodilhados em sonhos de vitória. Deus cortou-lhes a vida pela raiz.
-caíram quatro pedras do Império…-
Três milícias sucumbiram e dois outros sumiram para sempre. Verdades sangrentas arrancadas das vidas de rapazes, que foram subtraídos do puro usufruir de prováveis vidas felizes.
-silêncio!... houve gente que morreu…-
Nos descontentes céus de Bula os meios aéreos acudiram. Helicópteros largaram paraquedistas nas imediações da mata vil e ágeis aviões, Fiat, riscavam num vai-e-vem desvairado, enquanto alheia a tanta desgraça, àquele rio de misérias!, a infame noite, prenhe de perigos, ânsias e tormentos, se não fez esperar. E era preciso manter a pista da aviação em uso e foram ali assestadas dezenas de viaturas militares e civis que, de faróis acesos, ajudavam as avionetas a operar esboroando-se em auxílios e, que nem aves de rapina embrulhadas na penumbra, nos vinham roubar os feridos.
Da supliciada companhia erraram tropas. Achados ao alvorecer do sequente dia pelos homens das Panhards e pelos da companhia do Salgueiro Maia que, voluntariosos não se pouparam a desvelos. Dois dias depois outros, rostos graves e a morrer de tudo, sobrevieram noutros estremados paradeiros. E um último, que contou apenas com a sua perdurável fé, apareceu em Binar ao terceiro dia e desvairado. Flagelos de Deus que acabarão por ser varridos da curta memória dos homens. Nunca da lembrança dos que passaram por aqueles ultrajes e por lá secaram que nem cabedal velho. Eles não se deram ao cuidado de temer o medo do medo.
Naquele final do dia, o demónio ousou ainda atacar com foguetões, irritando-nos e queimando tabancas.”

(1) BCav 8320.

Bibliografia: Olhero, Leonel (2011) Ultrajes na Guerra Colonial. Edição do Autor (Euedito). pp. 211-213.

Nota do editor
Segundo este autor a envolvente e o desfecho trágico desta operação, levaram a que o general Spínola se tivesse deslocado a Bula, para repreender pessoalmente os responsáveis pelo seu planeamento.



Crónica dos Feitos da Guiné
“A acção decorre na Guiné no ano de graça de 1973, num Maio em fim de época das chuvas. A subunidade a que pertenço tem oficialmente a sua comissão terminada, está no que se chama o «mata-bicho». O dia 5 de maio nasceu calmo; no entanto, cedo se notou uma azáfama anormal de meios aéreos. Pelas 7 horas, ouviu-se forte tiroteio, pelo que tendo-me dirigido ao rádio, ouvi grossa confusão de pedidos de apoio aéreo, de apoio de artilharia, de evacuação, etc. Para cúmulo, tudo aquilo partia de um destacamento a cargo de um pelotão da minha companhia e sem eu ter conhecimento de qualquer acção das NT(1) nessa zona. Face à confusão no rádio e ao desconhecimento do que se passava na zona, segui para o meu destacamento com o efectivo disponível, que eram dez homens. No destacamento de C., transformado em posto d comando avançado, amontoavam-se, sentados no chão, cerca de 150 homens, que se encontravam de reserva; o ambiente era d nervosismo.
Pouco depois de ter chegado, novo contacto do PAIGC com outro bigrupo das NT. Dos primeiros contactos resultaram seis mortos para as NT, incluindo três milícias, vários feridos graves e o destroçar do bigrupo, que deixou no terreno os mortos com o respectivo material e equipamento (…). Os sobreviventes foram aparecendo no destacamento de C., cobertos pelos helicópteros e aviões que os foram sobrevoando até chegarem à entrada. Do segundo contacto resultaram um morto e três feridos graves e a captura pelo PAIGC de um equipamento completo (…). Ao contrário do primeiro contacto, os homens permaneceram no terreno, pois não sabiam como sair de lá nem tão-pouco como garantir as evacuações dos mortos e feridos; pediam pela rádio para lhes acudirem.
Face à situação, o comandante do batalhão manda avançar a companhia de reserva para acudir aos camaradas, mas, pura e simplesmente, a companhia recusa-se a avançar. Fico tão enojado com esta cena que, tendo como único pessoal sob o meu comando os dez homens que tinham vindo comigo mais outra secção do destacamento de C., disse-lhes que ia buscar os homens que estavam na mata. Se houvesse mais alguém que não fosse cobarde, podia ir comigo. As minhas duas secções e mais cinco homens subiram comigo para três Unimogs 414 e, de imediato, fomos acompanhados por duas autometralhadoras Panhard do esquadrão que actuava na zona e que, também voluntariamente, iam recuperar o pessoal que se encontrava perdido na mata (2).
Para quem não conheceu a mata da Guiné, é difícil explicar como se consegue ir a corta-mato com viaturas tendo de encontrar passagem por entre árvores, os arbustos, o capim alto, as ramagens com picos e, ao mesmo tempo, seguir uma direcção certa rumo a cerca de 60 homens deitados no chão. Para fazer cerca de 7 km demorámos quase hora e meia, apesar de tentarmos ir o mais depressa possível. Depois de rotos pela vegetação e cansados de correr ao lado das viaturas, chegámos ao local de combate. Ainda pairava no ar o cheiro adocicado das explosões; os homens tinham um ar alucinado, de náufrago que vê chegar a salvação, mas, em lugar de mostrarem a sua alegria, estavam ainda na fase de não saber se era verdade ou não.
(…)
Quando estamos para arrancar, ouvem-se várias explosões. Todo o mundo vai para o chão. Fico sem perceber, não ouço tiros de armas ligeiras. Na fracção de segundo em que, deitado no chão, tento perceber o que está a acontecer, começamos a ouvir como que o barulho de aviões a jacto. São os «jactos do povo», foguetões de 122 mm, que o PAIGC atira para a povoação sede do batalhão. Como a guerra não é connosco, mando retirar.
(…)
Chego ao destacamento de C. Está à minha espera uma coluna com ambulância para evacuar os feridos por terra. O médico do batalhão receita injecções e dá conselhos aos enfermeiros. Sigo no Unimog, que agora só tem cadáveres. Agradeço ao pessoal que saiu comigo a sua dedicação e digo-lhe que, mais que os agradecimentos, a nossa consciência nos recompensará. Mando preparar a minha secção para regressar ao meu destacamento. Enquanto se forma a coluna para Bissau e o meu pessoal se prepara, dou comigo a contemplar os mortos de boca e olhos abertos, com aspecto de quem não compreende nada do que aconteceu. Mecanicamente, tiros os atacadores das botas dos mortos, ato-lhes os queixos, ponho-lhes as mãos em cruz, os pés juntos. Com a água do cantil molho-lhes os olhos e fecho-lhos. Olho para a minha obra e também não entendo. Entretanto, os seus camaradas contemplam de longe, mas não se acercam.
Ainda agora, sempre que um senhor general da «brigada do reumático» diz que «a guerra estava ganha» me vêm à memória a morte estúpida daqueles homens e a vitória que eles ajudaram a preparar.”

(1) Nossas tropas.
(2) Negrito do editor do blogue. 

Bibliografia: Maia, Salgueiro (1997) Capitão de Abril: Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril. Lisboa. Editorial Noticias. pp. 59-62.



Mansoa, 6 de Maio de 1973
“ Os militares do quartel de Bula, ainda na zona de acção do CAOP 1, estão a passar por dificuldades. A vila fica mais perto de Bissau do que de Mansoa, a norte, e é um lugar estrategicamente importante. Um grupo grande de guerrilheiros anda por lá a fazer estragos. Numa emboscada próxima da povoação, as NT tiveram sete mortos, quatro soldados brancos e três negros, e bem podem agradecer a Deus. Eram só trinta e cinco soldados portugueses contra duzentos guerrilheiros, não foram todos dizimados por acaso. (19) Em seguida, Bula foi atacada por foguetões, sem consequências. O batalhão da terra é constituído por “periquitos” acabados de chegar de Portugal, inexperientes e medrosos. Os guerrilheiros sabem que eles são novos na Guiné e vá de atacar, atacar, atacar.”

(19) O grupo de combate que partiu do quartel de Bula em socorro destes militares era comandado pelo capitão Salgueiro Maia que mais tarde escreveu: “Face à situação, o comandante do batalhão (de Bula) manda avançar a companhia em reserva…” Salgueiro Maia continua descrevendo todo o desenrolar do sucedido numa narração impressionante e crua no seu livro Capitão de Abril, Lisboa, Ed. Noticias, 1997, pp. 59-62.


Bibliografia: Abreu, António Graça de (2007) Diário da Guiné: Lama, Sangue e Água Pura. Lisboa. Guerra e Paz, Editores SA. pp 94-95.

Sem comentários:

Enviar um comentário