Os textos abaixo citados
referem-se a uma operação decorrida em 1973, na mata do Choquemone, tendo a
particularidade de ser referenciada em três livros de autores diferentes, possibilitando,
deste modo, leituras individuais do mesmo acontecimento, que nalguns casos se
sobrepõem, noutro revelam aspetos vividos pelo protagonista ou ainda informação
complementar.
Não sendo estas descrições de
ações diretas das Panhards. Não deixam de ser um registo importante, que ficou
com certeza na memória dos intervenientes, e que salienta o modo espontâneo e
corajoso do nosso pessoal, mesmo em situações extremas.
Bula,
5 de Maio, sábado
“Ainda
a crua madrugada se demorava no ar e já se desencadeava uma operação ao
Choquemone. Com os comandos, fuzileiros e companhias do Batalhão(1).
Quando
já a luz do sol se fazia a jorros, uma companhia do Batalhão foi emboscada. No
meio daquela pessegada quatro morreram enrodilhados em sonhos de vitória. Deus
cortou-lhes a vida pela raiz.
-caíram
quatro pedras do Império…-
Três
milícias sucumbiram e dois outros sumiram para sempre. Verdades sangrentas
arrancadas das vidas de rapazes, que foram subtraídos do puro usufruir de
prováveis vidas felizes.
-silêncio!...
houve gente que morreu…-
Nos
descontentes céus de Bula os meios aéreos acudiram. Helicópteros largaram
paraquedistas nas imediações da mata vil e ágeis aviões, Fiat, riscavam num
vai-e-vem desvairado, enquanto alheia a tanta desgraça, àquele rio de
misérias!, a infame noite, prenhe de perigos, ânsias e tormentos, se não fez
esperar. E era preciso manter a pista da aviação em uso e foram ali assestadas
dezenas de viaturas militares e civis que, de faróis acesos, ajudavam as
avionetas a operar esboroando-se em auxílios e, que nem aves de rapina
embrulhadas na penumbra, nos vinham roubar os feridos.
Da
supliciada companhia erraram tropas. Achados ao alvorecer do sequente dia pelos
homens das Panhards e pelos da companhia do Salgueiro Maia que, voluntariosos
não se pouparam a desvelos. Dois dias depois outros, rostos graves e a morrer
de tudo, sobrevieram noutros estremados paradeiros. E um último, que contou
apenas com a sua perdurável fé, apareceu em Binar ao terceiro dia e desvairado.
Flagelos de Deus que acabarão por ser varridos da curta memória dos homens.
Nunca da lembrança dos que passaram por aqueles ultrajes
e por lá secaram que nem cabedal velho.
Eles não se deram ao cuidado de temer o medo do medo.
Naquele
final do dia, o demónio ousou ainda atacar com foguetões, irritando-nos e
queimando tabancas.”
(1)
BCav 8320.
Bibliografia:
Olhero, Leonel (2011) Ultrajes na Guerra Colonial. Edição do Autor (Euedito).
pp. 211-213.
Nota
do editor
Segundo
este autor a envolvente e o desfecho trágico desta operação, levaram a que o
general Spínola se tivesse deslocado a Bula, para repreender pessoalmente os
responsáveis pelo seu planeamento.
Crónica
dos Feitos da Guiné
“A
acção decorre na Guiné no ano de graça de 1973, num Maio em fim de época das
chuvas. A subunidade a que pertenço tem oficialmente a sua comissão terminada,
está no que se chama o «mata-bicho». O dia 5 de maio nasceu calmo; no entanto,
cedo se notou uma azáfama anormal de meios aéreos. Pelas 7 horas, ouviu-se
forte tiroteio, pelo que tendo-me dirigido ao rádio, ouvi grossa confusão de
pedidos de apoio aéreo, de apoio de artilharia, de evacuação, etc. Para cúmulo,
tudo aquilo partia de um destacamento a cargo de um pelotão da minha companhia
e sem eu ter conhecimento de qualquer acção das NT(1) nessa
zona. Face à confusão no rádio e ao desconhecimento do que se passava na zona,
segui para o meu destacamento com o efectivo disponível, que eram dez homens.
No destacamento de C., transformado em posto d comando avançado, amontoavam-se,
sentados no chão, cerca de 150 homens, que se encontravam de reserva; o
ambiente era d nervosismo.
Pouco
depois de ter chegado, novo contacto do PAIGC com outro bigrupo das NT. Dos
primeiros contactos resultaram seis mortos para as NT, incluindo três milícias,
vários feridos graves e o destroçar do bigrupo, que deixou no terreno os mortos
com o respectivo material e equipamento (…). Os sobreviventes foram aparecendo
no destacamento de C., cobertos pelos helicópteros e aviões que os foram
sobrevoando até chegarem à entrada. Do segundo contacto resultaram um morto e
três feridos graves e a captura pelo PAIGC de um equipamento completo (…). Ao
contrário do primeiro contacto, os homens permaneceram no terreno, pois não
sabiam como sair de lá nem tão-pouco como garantir as evacuações dos mortos e
feridos; pediam pela rádio para lhes acudirem.
Face
à situação, o comandante do batalhão manda avançar a companhia de reserva para
acudir aos camaradas, mas, pura e simplesmente, a companhia recusa-se a
avançar. Fico tão enojado com esta cena que, tendo como único pessoal sob o meu
comando os dez homens que tinham vindo comigo mais outra secção do destacamento
de C., disse-lhes que ia buscar os homens que estavam na mata. Se houvesse mais
alguém que não fosse cobarde, podia ir comigo. As minhas duas secções e mais
cinco homens subiram comigo para três Unimogs 414 e, de imediato, fomos acompanhados por duas
autometralhadoras Panhard do
esquadrão que actuava na zona e que, também voluntariamente, iam recuperar o
pessoal que se encontrava perdido na mata (2).
Para
quem não conheceu a mata da Guiné, é difícil explicar como se consegue ir a
corta-mato com viaturas tendo de encontrar passagem por entre árvores, os
arbustos, o capim alto, as ramagens com picos e, ao mesmo tempo, seguir uma
direcção certa rumo a cerca de 60 homens deitados no chão. Para fazer cerca de
7 km demorámos quase hora e meia, apesar de tentarmos ir o mais depressa
possível. Depois de rotos pela vegetação e cansados de correr ao lado das
viaturas, chegámos ao local de combate. Ainda pairava no ar o cheiro adocicado
das explosões; os homens tinham um ar alucinado, de náufrago que vê chegar a
salvação, mas, em lugar de mostrarem a sua alegria, estavam ainda na fase de
não saber se era verdade ou não.
(…)
Quando
estamos para arrancar, ouvem-se várias explosões. Todo o mundo vai para o chão.
Fico sem perceber, não ouço tiros de armas ligeiras. Na fracção de segundo em
que, deitado no chão, tento perceber o que está a acontecer, começamos a ouvir
como que o barulho de aviões a jacto. São os «jactos do povo», foguetões de 122
mm, que o PAIGC atira para a povoação sede do batalhão. Como a guerra não é
connosco, mando retirar.
(…)
Chego
ao destacamento de C. Está à minha espera uma coluna com ambulância para
evacuar os feridos por terra. O médico do batalhão receita injecções e dá
conselhos aos enfermeiros. Sigo no Unimog, que agora só tem cadáveres. Agradeço ao pessoal que saiu comigo a sua
dedicação e digo-lhe que, mais que os agradecimentos, a nossa consciência nos
recompensará. Mando preparar a minha secção para regressar ao meu destacamento.
Enquanto se forma a coluna para Bissau e o meu pessoal se prepara, dou comigo a
contemplar os mortos de boca e olhos abertos, com aspecto de quem não
compreende nada do que aconteceu. Mecanicamente, tiros os atacadores das botas
dos mortos, ato-lhes os queixos, ponho-lhes as mãos em cruz, os pés juntos. Com
a água do cantil molho-lhes os olhos e fecho-lhos. Olho para a minha obra e
também não entendo. Entretanto, os seus camaradas contemplam de longe, mas não
se acercam.
Ainda
agora, sempre que um senhor general da «brigada do reumático» diz que «a guerra
estava ganha» me vêm à memória a morte estúpida daqueles homens e a vitória que
eles ajudaram a preparar.”
(1)
Nossas tropas.
(2) Negrito do editor do blogue.
(2) Negrito do editor do blogue.
Bibliografia: Maia,
Salgueiro (1997) Capitão de Abril: Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de
Abril. Lisboa. Editorial Noticias. pp. 59-62.
Mansoa,
6 de Maio de 1973
“
Os militares do quartel de Bula, ainda na zona de acção do CAOP 1, estão a
passar por dificuldades. A vila fica mais perto de Bissau do que de Mansoa, a
norte, e é um lugar estrategicamente importante. Um grupo grande de
guerrilheiros anda por lá a fazer estragos. Numa emboscada próxima da povoação,
as NT tiveram sete mortos, quatro soldados brancos e três negros, e bem podem
agradecer a Deus. Eram só trinta e cinco soldados portugueses contra duzentos
guerrilheiros, não foram todos dizimados por acaso. (19)
Em seguida, Bula foi atacada por foguetões, sem consequências. O batalhão da
terra é constituído por “periquitos” acabados de chegar de Portugal,
inexperientes e medrosos. Os guerrilheiros sabem que eles são novos na Guiné e
vá de atacar, atacar, atacar.”
(19) O grupo de combate que
partiu do quartel de Bula em socorro destes militares era comandado pelo
capitão Salgueiro Maia que mais tarde escreveu: “Face à situação, o comandante
do batalhão (de Bula) manda avançar a companhia em reserva…” Salgueiro Maia
continua descrevendo todo o desenrolar do sucedido numa narração impressionante
e crua no seu livro Capitão de Abril,
Lisboa, Ed. Noticias, 1997, pp. 59-62.
Bibliografia: Abreu, António Graça de (2007) Diário da Guiné: Lama, Sangue e Água Pura. Lisboa. Guerra e Paz, Editores SA. pp 94-95.
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